A lenda do crocodilo que só tinha cabeça

Saiu semana passada (26/05/2016) um artigo científico na revista PeerJ, um trabalho fruto do esforço coletivo de diversos membros e ex-membros do Laboratório de Paleontologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (Universidade de São Paulo).

Fig12
Reconstrução esqueletal de Pissarrachampsa sera, baseado em todos os materiais conhecidos. Barra de escala igual a 80 cm (Godoy et al., 2016).

A ideia central do paper foi descrever o material pós-craniano associado ao baurussuquídeo Pissarrachampsa sera. Falei grego? Para os não paleontólogos (ou para os não vertebratólogos), tentarei explicar. “Material pós-craniano” é toda parte de um animal que não pertence ao crânio, ou seja, todos os ossos (fossilizados, no caso de um fóssil) de um animal que são do restante do corpo, excluindo-se a cabeça. Legal, já entendemos a primeira parte.

Mas “baurussu…”? O que? Baurussuquídeos! Eles foram um grupo de crocodiliformes (ou seja, animais do mesmo grupo dos crocodilos e jacarés) que viveram no Brasil há 90 milhões de anos atrás, durante o período denominado Cretáceo. O nome do grupo, Baurusuchidae, vem da primeira espécie descoberta: Baurusuchus salgadoensis. Mas eles não eram exatamente iguais aos crocodilianos que vivem na Terra hoje em dia. Diferente dos jacarés e seus parentes viventes, os baurussuquídeos eram animais bem menos associados à vida na água, a ponto de nós os considerarmos verdadeiramente terrestres. E o que nos permite afirmar isso são informações de duas fontes diferentes. A primeira vem da geologia. A partir da análise das rochas nas quais os fósseis destes animais são encontrados é possível dizer que o ambiente em que viviam era bastante seco (de árido a semiárido). A segunda fonte é a paleontologia, ou os próprios fósseis. Determinados aspectos da morfologia nos permitem inferir como era o animal em vida. Uma característica importante dos baurussuquídeos é que não se locomoviam como os jacarés, quase se arrastando, mas apresentavam uma postura mais “ereta” (não ereta como em nós humanos, mas sim parecida com a de um cachorro, por exemplo).

baurusuchus
Reconstrução artística de Baurusuchus salgadoensis (ilustração: Deverson da Silva – Pepi).

Então, vamos tentar repetir a frase: “a ideia central do artigo foi descrever o material pós-craniano associado ao baurussuquídeo Pissarrachampsa sera”. Mais compreensível? Pra deixar claro, “descrever” quer dizer traduzir em palavras o que estamos vendo nos ossos, e é uma parte essencial no trabalho paleontológico, já que é a partir das descrições que temos os dados brutos para posteriores análises. Mas o trabalho não se restringiu somente à descrição. Por exemplo, nós apontamos e discutimos as características que dão mais suporte à ideia de que esses animais eram predadores terrestres com posturas mais eretas. Um pouco mais interessante (na minha opinião), é a discussão sobre os osteodermos. Traduzindo mais uma vez, osteodermos são placas ou escudos ósseos dos crocodiliformes, que cobrem boa parte do corpo desses animais. São bem comuns entre diversos subgrupos de crocodiliformes, ao longo dos 200 milhões de anos de evolução do grupo. Mas Pissarrachampsa sera é o primeiro crocodiliforme terrestre conhecido que não possuía osteodermos. E esta perda dos osteodermos pode acarretar em consequências biológicas. Vale frisar que consideramos uma perda evolutiva, uma vez que todos as outras espécies de crocodiliformes terrestres possuem osteodermos, mas que não necessariamente é algo ruim. Pelo contrário, aparentemente parece haver uma redução do número de osteodermos em outros baurussuquídeos, que são as espécies mais próximas de Pissarrachampsa. Ou seja, é bem possível que este número reduzido de escudos ósseos, e a eventual perda total em Pissarrachampsa, estivesse associado ao modo de vida desses animais.

Fig15
Cladograma (consenso estrito reduzido) gerado a partir da análise filogenética usando somente dados pós-cranianos (Godoy et al., 2016).

Por fim, como não poderia deixar de ser, utilizando as novas informações obtidas com a descrição do pós-crânio, pudemos realizar uma nova análise filogenética. Análises filogenéticas usam dados morfológicos (como neste nosso caso) ou moleculares para buscar uma hipótese de como teria acontecido a história evolutiva de um grupo de espécies. Os resultados das análises filogenéticas são apresentados em forma de árvores filogenéticas (ou cladograma) que ilustram as relações de parentesco entre os animais estudados. Em teoria, quanto mais informações temos para essas espécies, mais próximos ficamos de entender e explicar o cenário real. No caso do nosso estudo, nós adicionamos as novas informações que tínhamos para Pissarrachampsa (relacionadas ao pós-crânio) esperando encontrar uma alguma alteração na árvore filogenética já existente para o grupo. Mas não foi o que aconteceu! O cladograma resultante não se alterou. O que isso significa? Pode simplesmente significar que a hipótese proposta anteriormente já era bem robusta, e que mais informações não vão mudar os resultados. Mas também pode significar que as nossas novas informações não são muito informativas, (ou seja, não nos ajudam a resolver o problema) ou estão em acordo com as informações vindas somente do crânio de Pissarrachampsa. Resolvemos, então, testar se as informações do pós-crânio dos crocodiliformes são importantes para definir as hipóteses filogenéticas do grupo de maneira geral. Fizemos isso analisando filogeneticamente dados apenas do pós-crânio de baurussuquídeos. Os resultados mostram que as relações filogenéticas dos crocodiliformes são principalmente determinadas pelos dados cranianos. Quando usamos somente as informações do pós-crânio, alguns subgrupos são reconhecíveis, mas o arranjo geral da filogenia é bem alterado. O problema é que, historicamente, os trabalhos paleontológicos com crocodiliformes focaram muito mais no crânio. Isso deixou os materiais pós-cranianos negligenciados. Deste modo, obviamente, a maioria das hipóteses filogenéticas é baseada nas informações que vêm do crânio. Então, pudemos concluir que o pós-crânio poderia ser melhor explorado como fonte de informações e incentivamos trabalhos futuros a focar também nessa parte do corpo (tanto com descrições quanto em análises filogenéticas). Os paleontólogos que trabalham com crocodilos deveriam deixar de tratá-los como animais que só tinham cabeça.
Escrito por: Pedro L. Godoy

Referência: Godoy PL, Bronzati M, Eltink E, Marsola JCdA, Cidade GM, Langer MC, Montefeltro FC. (2016)Postcranial anatomy of Pissarrachampsa sera (Crocodyliformes, Baurusuchidae) from the Late Cretaceous of Brazil: insights on lifestyle and phylogenetic significance. PeerJ 4:e2075 https://peerj.com/articles/2075/?td=bl

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