O bizarro Atopodentatus unicus

Em 2014 cientistas chineses descreveram, na revista Naturwissenschaften, uma nova espécie de réptil marinho do Triássico Médio da China (aprox. 242 milhões de anos). Esse enigmático animal recebeu o nome de Atopodentatus unicus, que significa algo como “animal único de dentição peculiar”, remetendo a uma de suas características mais bizarras, os dentes. Atopodentatus possuía numerosos dentes, bastante finos e delicados e dispostos em um tipo de fenda dorsal formada pelos maxilares e pré-maxilares (os ossos que formam a parte dorsal da boca em répteis).

Os autores interpretaram Atopodentatus como um animal filtrador, usando como indicativos o formato bizarro da cabeça, juntamente com os delicados e numerosos dentes e uma musculatura não muito potente relacionada ao abrir e fechar das mandíbulas. De forma similar a um flamingo, ele usava seu focinho retorcido como uma pá e remexia o fundo lamacento de áreas costeiras, coletando pequenos animais e prendendo-os dentro da boca, usando seus finos dentes como uma cerca. Ou pelo menos era isso que eles acreditavam…

Atopodentatus unicus foi descrito com base em um único fóssil lindamente preservado, mas com um crânio bastante achatado lateralmente. Este achatamento é comum nos fósseis encontrados em lajes, como é o caso da Formação Guanjing na China, onde Atopodentatus foi encontrado, e muitas vezes dificulta a interpretação de estruturas tridimensionais, como crânios de répteis. Apesar disto, a forma e disposição dos ossos em seu crânio, além de seus finos dentes, sugeriam fortemente um formato de cabeça incomum entre répteis, provavelmente associado a seus hábitos alimentares.

Antigo e novo Antopodentatus
À direita, reconstrução de Julius Csotonyi, baseada na interpretação de Atopodentatus unicus como filtrador, de Cheng et al. (2014) e à esquerda nova reconstrução de Y. Chen, baseada na nova interpretação de Chun et al. (2016).

A história do bizarro réptil marinho ganhou um novo capítulo este ano, com um artigo publicado na revista online Science Advances, no qual os autores descrevem dois novos espécimes encontrados na Formação Guanjing e também identificados como Atopodentatus unicus. Nestes novos fósseis, os crânios encontram-se em outra posição e estão achatados dorso-ventralmente (de cima para baixo). A preservação distinta permitiu aos autores reinterpretarem a região do focinho de Atopodentatus: a fenda dorsal não está presente e os pré-maxilares e maxilares retorcidos formam projeções laterais como em um tubarão cabeça-de-martelo.

O novo formato do focinho (com exceção das projeções laterais) lembra o do dinossauro Nigersaurus taqueti. Este saurópode também possuía uma fileira de finos e numeroso dentes e foi interpretado como um dinossauro “pastador”, que usava seu longo pescoço para posicionar seu focinho chato paralelamente ao solo, retirando as folhas de plantas rasteiras com suas baterias de dentes paralelas.

Nigersaurus-Sereno et al2007
Ilustração do crânio de Nigersaurus taqueti em vistas lateral (A) e dorsal (B), de sua mandíbula em vista dorsal (C) e reconstruções 3D de sua bateria dentária (D) e do crânio todo (E). Modificado de Sereno et al. 2007.

A reinterpretação da morfologia craniana de Atopodentatus unicus levou os autores a inferirem um hábito similar a este réptil marinho. Eles deveriam se alimentar de plantas e algas que crescem no fundo dos mares, posicionando sua fileira de dentes paralelamente ao fundo. Assim, de acordo com os autores, Atopodentatus seria o mais antigo réptil herbívoro marinho, aumentando ainda mais a diversidade de hábitos e formas conhecida para este importante período da história da Terra, poucos milhões de anos após a extinção do Permo-Triássico, a maior extinção em massa conhecida. Estes achados revelam ao mesmo tempo a forma gradual como o conhecimento paleontológico é construído, sempre reconsiderando antigas proposições, e o potencial dos processos evolutivos em reformular e preencher espaços ecológicos vagos.

Escrito por: Gabriel S. Ferreira

Imagem destacada: O novo fóssil de Atopodentatus unicus ao lado de reconstrução baseada em sua nova interpretação. Reconstrução por Nick Fraser.

Fontes:

Cheng L., Chen X-H., Shang Q-H., Wu X-C. (2014) A new marine reptile from the Triassic of China, with a highly specialized feeding adaptationNaturwissenschaften.

Chun L., Rieppel O., Long C., Fraser N.C. (2016) The earliest herbivorous marine reptile and its remarkable jaw apparatus. Science Advances. Acesso aberto.

Sereno P.C., Wilson J.A., Witmer L.M., Whitlock J.A., Maga A., Ide O., Rowe T.A. (2007) Structural extremes in a Cretaceous Dinosaur. PlosOne. Acesso aberto.

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